Postais resistem às máquinas digitais

Foto-do-acervo-do-museu-tempostalJoão Araújo e Marcelo Lima

Salvador completou 461 anos no último dia 29 de março. Para comemorar de um modo diferente, resolvemos apurar quem (e como) trabalha com cartões postais nessa cidade tão conhecida por seus pontos turísticos. Esse mercado envolve fotógrafos, arte-finalizadores, editores, gráficas, representantes comerciais, lojistas e mesmo agências de viagem. Em Salvador, a empresa Pau Brasilis, administrada pelo fotógrafo amador e empresário francês Christian Fehr, lidera localmente esse comércio.

Christian revela que mora na cidade desde meados dos anos 90 e começou vendendo seus postais de loja em loja, ou mesmo diretamente para os turistas, até ganhar reconhecimento e poder montar a Pau Brasilis. “Quando eu cheguei a passeio na cidade a achei tão bonita que resolvi ficar de vez, mas apesar dos belos pontos turísticos, os postais eram lamentáveis, e percebi que podia fazer melhor”.

Apesar de ser a maior empresa da cidade, a produção da Pau Brasilis é quase amadora. O próprio Christian Fehr fotografa os pontos turísticos, baianas, igrejas ou rodas de capoeira; sua esposa arte-finaliza as imagens e edita os cartões e apenas a impressão é terceirizada. Para distribuir o produto nas imediações de Salvador, a empresa conta, além de duas lojas no Pelourinho, com apenas dois representantes comerciais.

A respeito das fotografias, Christian revela que não é a cidade em si que garante uma boa imagem, mas sim o exagero do estereótipo. “As pessoas sempre gostam de fotos de uma baiana sorrindo, ou do interior de uma igreja. No caso de externas, é importante que o céu esteja limpo, o que às vezes demanda um certo trabalho de edição”. Orgulhoso, ainda conta que os postais nasceram na França durante a primeira guerra, e até hoje a maioria dos postais vendidos na Europa ou Américas possui indicações na língua do país onde são produzidos e em francês.

A empresa foi aberta em 1998 e, desde a sua fundação, as vendas cresceram ano após ano até 2006, quando começaram a cair drasticamente, até atingir hoje um corte de 50% no volume negociado. “As vendas caíram na Barra, por exemplo. Fora de Salvador a gente vê o mesmo, como em Costa do Sauípe e Praia do Forte” diz Oscar Lobo, representante comercial. “No Mercado Modelo e no Pelourinho a realidade é a mesma”, acrescenta Miguel Santa Bárbara, seu colega de trabalho.

Os representantes Oscar e Miguel concordam que o grande culpado pela baixa de vendas é a queda do turismo com a valorização do real. Christian pontua ainda que, com a popularização das câmeras digitais, os jovens não compram mais cartões, preferindo tirar suas próprias fotografias, diminuindo a abrangência do mercado. A visão dele é corroborada pela vendedora Ilma Bastos, da loja Artesanato Modelo, no Pelourinho. Ela acredita que o recuo nas vendas se deve ao fato de hoje em dia as pessoas tirarem fotos, compartilhando-as na internet e montando seus próprios postais.

Marcelo Castro, vendedor de uma banca de revistas no Comércio, garante que lá a transação é intensa. “Sai cerca de 20 ou 30 por dia, principalmente perto da alta temporada. Mesmo assim, tendo em vista os últimos anos, caíram bastante”.
Franceses e italianos

 Christian acha que os franceses sempre compram mais postais. Já a vendedora Ilma diz que são os italianos. Seja como for, quem nunca deixa de adquirir os pequenos cartões são os colecionadores que, com o crescimento de portais como o postcrossing.com e fóruns de discussão online, têm mais possibilidades de intercâmbio entre usuários.

Fernanda Espinheira, 40 anos, colecionadora há dez, negocia postais com pessoas de todo o mundo. Ela oferece cartões soteropolitanos em troca de outros das mais variadas cidades. Em meio a estórias engraçadas sobre suas barganhas com um rapaz da Índia e outro do Nepal, ela explica como se dá o processo de negociação na rede. “Quando eu quero ter postais de algum país, entro em contato com a pessoa através de mensagens e peço pra trocar. Havendo interesse da parte da pessoa, ela entrará em contato comigo, porém, antes de enviar os postais, a gente negocia quantos serão enviados”.

O lugar, parada obrigatória para colecionadores em Salvador, é o Museu Tempostal. A monitora Kátia Nano esclarece que o museu conta com um acervo de cerca de 40 a 45 mil postais e fotografias antigas e contemporâneas. “Quando foi comprado pelo governo do estado do seu Antônio Marcelino em 1995, o Tempostal tinha um acervo de 30 mil peças. Como o governo não pode comprar mais, o acervo só é aumentado através de doações”. Kátia explica que o museu, localizado na Rua Gregório de Mattos, no Pelourinho, abriga exposições de curta, média e longa duração.

Christian Fehr lamenta que algo a que já foi dedicado um museu e que desperta tanta paixão de colecionadores, representando com tal força a memória de visitas e cidades, esteja se perdendo. Por isso, sua empresa tem procurado inovar em soluções para aumentar a venda, como a distribuição de boxes fechados com dez cartões ou os postais temáticos ilustrados que se distanciam dos pontos turísticos, aproximando-se de aspectos como a religiosidade local, por exemplo, através das pinturas de Orixás.

Um Comentário para “ Postais resistem às máquinas digitais ”

  1. clowns@ozarks.mv” rel=”nofollow”>.…

    thanks….

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