Jornalismo Popular: Modismo ou um “novo” caminho para o jornalismo?

 que_venha_o_povoAndré Araújo 

Nos últimos anos, a televisão baiana tem visto um aumento, dentro de sua grade de programação regional, de programas classificados como “jornalismo popular”. Marcados por uma forte “espetacularização” de suas pautas, especialmente quando vincula operações policiais, esses programas têm visto sua audiência aumentar e, com isso, se tornar um novo modelo para o telejornalismo baiano. Tudo isso com a intenção de haver uma aproximação da linguagem televisiva com o que representaria a linguagem e os gostos “do povo”.

 Conforme afirmou a pesquisadora Mirella Santos, vinculada ao grupo de análise em Telejornalismo da Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia (Facom/UFBA), “ao se voltar para o popular, os programas televisivos incorporam elementos éticos e estéticos partilhados na esfera do popular e, ao mesmo tempo, articulam-se a marcas próprias do gênero televisivo, numa tentativa de produzir um determinado efeito no processo de mediação”.

 Mesmo não sendo um formato novo, existente na TV desde os anos 80 com o programa “O povo na TV” ou nos anos 90 com o “Aqui Agora”, veiculados pelo SBT, esse gênero volta à tona com força na grade de programação local. Ocupando a faixa horária do almoço, iniciando-se ao meio-dia e terminando por volta das 14h30min, quatro programas com esse formato disputam a audiência no horário: Balanço Geral e Se Liga Bocão pela Tv Itapoan (Rede Record), e o Que Venha o Povo  e o Na Mira pela Tv Aratu (SBT). A Band também possui programa em estilo semelhante, o Bahia Urgente, mas que acaba não competindo pela liderança.

 É possível notar, também, algumas mudanças no programa Bahia Meio Dia, telejornal veiculado na mesma faixa horária e que vem sendo influenciado pela briga de audiência. Para além dos seus quadros “tradicionais”, como o que tenta encaminhar desempregados para o mercado de trabalho, ou o de “desaparecidos”, quem assiste frequentemente o programa certamente percebeu o uso de um modo de falar mais enfático e uma reivindicação do seu caráter popular desde a chamada inicial do programa. Ele seria, então, o “telejornal líder de audiência e que está sempre próximo das comunidades”, como se auto-proclama.

 Na Facom/UFBA, o Centro de Comunicação, Democracia e Cidadania também tem pesquisado as características mais recorrentes desses programas. Conforme aponta Pedro Caribé um dos pesquisadores do Centro, programas como o “Na Mira” e o “Se Liga Bocão” se caracterizam “por uma utilização da linguagem coloquial; pelo abuso da linguagem gestual e de estratégias de entonação de voz pelos apresentadores; por pautas que, na maioria das vezes, se vinculam à temática da violência e pela posição dos apresentadores enquanto ‘âncoras-juízes’, ou seja, cumprindo o papel de comentar julgar o fato retratado”.

  A mudança não se limita à TV

  Percebendo este novo filão de mercado, os jornais impressos também têm modificado sua estrutura em busca da atração de um novo perfil de leitor, que anteriormente se concentrava nas chamadas classes A e B. Seguindo o exemplo de outros periódicos, como o carioca Jornal do Brasil, o Correio da Bahia transformou-se em Correio*, mudou o seu layout e o formato de suas matérias. E isso trouxe resultados mercadológicos bastante expressivos: em cerca de um ano e meio, segundo dados do seu departamento comercial, o jornal aumentou sua tiragem em cerca de 300 % e acabou influenciando o Jornal A Tarde a tirar da gaveta um projeto semelhante.

 Essas mudanças representaram uma grande transformação em sua linguagem. As suas matérias se tornaram mais curtas, houve um aumento de seu apelo visual, uma mudança de apresentação em suas manchetes e, especialmente, passou a ser utilizada uma linguagem mais coloquial e “popular”.

Muitas foram as críticas feitas ao jornal por conta dessas mudanças, que representariam um prejuízo ao “fazer jornalístico”. Entretanto, como aponta Taciana Gacelin, integrante do Centro de Estudo e Pesquisa em Análise do Discurso da Facom/UFBA, “no momento das pontuações negativas ao jornal, é esquecido que é, também, o contexto que define o que pode ser dito ou não. Na atualidade, há um novo perfil de leitores. Estes não são semelhantes a aqueles que antigamente liam textos gigantescos, sem imagens e descoloridos; fatores estes que devem ser bastante valorizados na contemporaneidade. Assim, não faz sentido o enunciador tentar manter uma relação de confiança com o destinatário sem compartilhar do desejo deste, o qual é marcado por um determinado período”.

Resta saber, agora, se esse “modo de fazer” jornalismo se expandirá ou se retrairá nos próximos anos. Mas como a lógica midiatica se baseia na lógica da audiência, e na venda de espaço publicitário, certamente é o público, e os anunciantes, quem irão decidir.

Um Comentário para “ Jornalismo Popular: Modismo ou um “novo” caminho para o jornalismo? ”

  1. heiress@smarter.belief” rel=”nofollow”>.…

    ñïñ!…

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