“Dizem que ela existe para proteger”

policia-violencia-762360Egideilson Santana

 

(Charge: Laerte)

De acordo com a ONU, anualmente cerca de 48 mil pessoas – mais do que no Iraque e nos conflitos entre Israel e Palestina – são mortas no Brasil e a grande maioria das vítimas morrem pelas armas daqueles que deveriam nos proteger, os policiais. Por essas e outras, amargamos o pódio de quinto país em números de homicídios no mundo, sem falar da medalha de bronze no número de roubos.

Sabemos da responsabilidade do Estado – e da nossa – em todos esses problemas, mas o que deveria deixar cada cidadão deste país indignado é ver nas ruas uma polícia que guarda patrimônios privados, que forma milícias privadas, que defende políticos corruptos, uma polícia que se corrompe e culpa o país pelos seus podres. O que deveria nos deixar inconformados é ter uma polícia que mata, e que mata muito mais do que os bandidos, uma polícia que carrega consigo heranças brutais de uma ditadura maldita, uma polícia que nos coloca medo e que nos cala. É revoltante pensar que isto está tão incorporado na nossa sociedade que, com tantos escândalos, palavras como “inquérito administrativo” já fazem parte da nossa rotina.

A experiência aqui é, também, pessoal. Durante 10 anos estudei em escola militar e desde cedo a hierarquia e toda aquela sensação de força dos “grandes” perante os “pequenos” me chamava a atenção. E quando um ser humano, de alguma forma, se sente superior ao outro, alguém acaba ferido. Claro que somos nós, é a lei da selva.

Policiais, por natureza, tendem a acreditar que uma arma de fogo lhes confere poderes dignos de heróis. E, muitas vezes, a linha entre civilidade e animalidade é muito tênue para esta classe. Sabemos sobre os bons profissionais, bons seres humanos, etc., mas pela quantidade de policiais que vemos diariamente envolvidos nos maiores crimes desta nação, os bons correm riscos de virar exceções.

Uns dizem que é falta de preparo e de melhores salários, e talvez também seja, mas devemos separar o que são erros deontológicos, “justificados” pela falta do Estado, com os erros de caráter – erros éticos, considerando a plenitude do termo – de ordem psicológica, mesmo, causados por essa sensação de superioridade, de estar acima do céu e da terra, de uma parcela dos indivíduos que vestem uma farda policial. Além do que, no vídeo aqui publicado, os agressores dos estudantes que protestavam pacificamente – exercendo um direito previsto na constituição deste país – são funcionários com altas patentes da polícia militar de Brasília, e em Brasília um soldado – o cargo mais baixo – recebe cerca de 4 mil reais por mês. Para agredir estudante e defender político corrupto.

Na Bahia, a Câmera de Deputados aprovou neste ano um projeto de emenda constitucional -PEC- para trazer para o Estado o mesmo piso salarial de R$ 4 mil para as polícias. Nada mais justo que uma classe como a da polícia tenha um salário a partir dos R$ 4 mil, porém, com esta mesma proposta, deveríamos, nós, cidadãos, ter a certeza de que a classe estará melhor armada e, principalmente, preparada. Mas não, a PEC nada fala sobre o assunto, como se pagar R$ 4 mil a um soldado despreparado fosse colaborar para alguma melhora em nossa sociedade. Sem falar que, enquanto os policiais lutam por salários, os professores, responsáveis pela iniciação intelectual da criança no mundo, a mesma criança que mais tarde entra para o tráfico por falta de estudo e oportunidade, tem um piso salarial de R$ 950. E aí, onde entra a justiça?

Ainda sobre Bahia, está sendo criada uma falsa adoração à polícia com os seus programas televisivos do meio dia, justificando-se várias atrocidades cometidas por policiais no Estado. Uma “puxação” de saco em troca de “bons” furos de reportagem. A situação anda tão complicada que a polícia baiana, por vezes, chega a produzir imagens para estes programas, que fazem dos problemas estruturais de toda uma sociedade – sejam as drogas ou a violência, falta de emprego, etc.- o seu ganha pão anti-ético de todos os dias.

Outro dia, pela TV, tive o desprazer de assistir a um policial recriminando a população que desconfiava de um assassinato, supostamente realizado por armas de policiais. O policial em questão dizia às pessoas que, se fosse uma morte causada por “marginais” a população estaria quieta, com medo. Mas “só” porque teria um policial envolvido, eles queriam recriminar o PM. É, o policial pode, mas o “vagabundo”, “marginal”, deve ser preso, pelos mesmos policiais. Isto não faria sentido nem se fosse contado como uma piada.

Enfim, deixo aqui esta reflexão de mais um cidadão brasileiro que sonha em, um dia, ter uma polícia preparada, bem equipada, com salários condizentes com a realidade do país e consciente de que policial é nada – nada – além de um servidor, um funcionário público. E que todo o orgulho sentido por um policial seja apenas pelo correto cumprimento de suas funções do servir.

Concordem, discordem, pensem, reflitam. A democracia agradece.

Um Comentário para “ “Dizem que ela existe para proteger” ”

  1. beefed@staring.nullified” rel=”nofollow”>.…

    ñïñ çà èíôó!!…

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