Templo de crenças e turismo

Fotos: Hugo Leonardo

De longe se avista a Igreja do Nosso Senhor do Bonfim.

De longe se avista a Igreja do Nosso Senhor do Bonfim.

Mais uma sexta-feira se inicia na cidade do Salvador, céu com poucas nuvens e temperatura se aproximando dos 34° graus centígrados. Agora o relógio marca 11h10 minutos. Na Sagrada Colina, turistas desavisados que se esqueceram de passar protetor solar já apresentam o sinais do descuido, a pele avermelhada, mas mesmo assim não deixam de registrar em fotos a passagem pelo maior símbolo do catolicismo baiano, a Igreja do Nosso Senhor do Bonfim. Isso se os vendedores das famosas fitinhas do Santo assim permitirem. É um verdadeiro bazar de lembranças do lugar, que são oferecidas de uma maneira frenética e quase perturbadora. Porém é importante ressaltar que os ambulantes que ali trabalham, mulheres na sua maioria, antes de ganharem o “pão de cada dia” vendendo inúmeros artigos religiosos são também devotos fervorosos do Senhor do Bonfim.

As famosas escadarias do Bonfim

As famosas escadarias do Bonfim

Mas nas famosas escadarias da igreja, não passam somente turistas e vendedores ambulantes, nelas também, em número maior, transitam os soteropolitanos católicos e os adeptos do candomblé que juntos participam da celebração ao Santo mais conhecido da Bahia. No sincretismo religioso o Senhor do Bonfim passou a ser identificado com um dos orixás, Oxalá, por causa disso muitos vão de roupa branca para a missa de sexta-feira na Igreja do Bonfim. O branco é cor dedicada a Oxalá. No entanto, numa demonstração de costumes que acabaram por se misturar, tanto os adeptos do candomblé quanto os católicos se vestem de branco em homenagem ao mesmo Santo ou Orixá. As escadarias se tornaram conhecidas pela festa da primeira quinta-feira depois do dia de Reis, dia do Senhor do Bonfim, onde baianas a lavam com a água de cheiro depois de uma extensa caminhada que é iniciada na Igreja da Conceição da Praia e vai até a Sagrada Colina onde se localiza o templo que abriga a imagem do Santo homenageado. A tradição da Lavagem foi iniciada por escravos no século XVIII que eram obrigados a lavar o templo antes da referida comemoração e que hoje diferentemente desse passado é feita de forma espontânea por baianas, numa festa que une essas duas religiões e coloca nas ruas manifestações do sagrado e o profano.

O belo interior da igreja

O belo interior da igreja

Agora são 11h18minutos, a igreja ainda não está completamente cheia, as pessoas vão chegando aos poucos, têm muita gente tirando fotos, principalmente aqueles que estão nessa igreja pela primeira vez. Pessoas ajoelhadas fazem seus pedidos ou agradecem por graças alcançadas. O dia quente ficou do lado de fora, agora uma agradável brisa entra pelas grandes janelas laterais da igreja de onde se vê boa parte da cidade do Salvador. As fitinhas amarradas nas grades das janelas e no portão frontal do templo agitam, como se tivessem enviando os pedidos das pessoas que as amarraram através do vento que sopra nessa manhã no alto da Colina Sagrada.

O padre começa a missa e logo se pode notar a mistura dos elementos do candomblé e do catolicismo. Ecoa nas paredes da igreja de estilo neoclássico o som de vozes do coral sacro que logo passa a ser acompanhado pelas batidas fortes dos atabaques. Todos parecem fascinados com tal espetáculo, os sons originários das senzalas parecem terem sido feitos para acompanhar esse coral e para a igreja de excelente acústica. As pessoas nesse momento estão mais próximas, para aqueles que acreditam em alguma força divida, do transcendental.

Fiéis tocam a imagem com grande emoção

Fiéis tocam a imagem com grande emoção

A imagem do Senhor do Bonfim é anunciada e já começa a adentrar no santuário, o hino ao Santo começa a ser cantado, os devotos tentam se aproximar da imagem, aqueles que conseguem tocá-la, choram de emoção. Inexplicavelmente o que no início poderia ser confundido com espetáculo para turista ver e fotografar é muito mais que isso, é fé. O que para muitos é combustível para a vida. Nesse momento aqueles que a possuem, mais uma vez a ratificam, através das lágrimas de gratidão por obstáculos vencidos, com a ajuda segundo elas, do Nosso Senhor do Bonfim. Agora são 13h25min minutos é o final da missa e o padre joga água-benta nas pessoas. Minutos se passaram, agora é a última melhor chance no dia para os vendedores das lembrancinhas do Senhor do Bonfim. Muita gente se aglomera na frente da igreja e aqueles que receberam a bênção lá dentro querem a reforçar aqui fora com os ramos dos filhos e pais-de-santo que os esperam na praça de frente o santuário. Nessa atitude demonstram mais uma vez o quanto as duas religiões estão atreladas nesse local e o quanto de respeitabilidade mútua conquistaram nesse espaço.

Um Comentário para “ Templo de crenças e turismo ”

  1. johnny@jacques.demonstrable” rel=”nofollow”>.…

    áëàãîäàðåí….

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