O quibe e o presidente

Uma empresa baiana resolveu se aproximar de seus funcionários e – paraquibe2 isso – montou comemorações  sob pretexto de que fossem homenageados os aniversariantes do mês. Todos organizados em círculo e,  atrás do bolo, pãezinhos e outras guloseimas, figurava a autoridade da sala: o presidente. Os “parceiros”, como eram chamados os funcionários pelos diretores, olhavam atentos (não sei ao certo se para o bolo ou para autoridade).
Todos à postos, hora de um pequeno discurso.
Como todo grande intelectual, começa por confessar sua pouca intimidade com as palavras e cita qualquer grego para mostrar sua insignificância no que se refere a retórica.

(O cheiro de salgado exala pela sala. A gordinha se remexe na cadeira).

Lá está o grande chefe. Lá atrás do bolo.
Agora vai para o segundo passo característico dos grandes intelectuais: a adoração a si próprio. Sem dúvida era um chefe por natureza, garantia. Nunca a empresa foi tão bem representada, repetia.

(O cheiro de coxinha começa a incomodar).

Pausa para a o terceiro passo do verdadeiro intelectual: a citação. Dessa vez foi um livro de auto-ajuda disfarçado, cujo autor, americano, recebeu a pronúncia minuciosa de seu nome com-ple-to. (Pausa para o cochicho da vizinha que me segreda ser o de camarão o melhor da mesa). Pausa para rir descontroladamente. Paro, respiro, mexo em qualquer coisa. Concentração! Nova pausa.

Agora o homem atrás do bolo se sente honrado com a presença de outro grande como ele. Desta vez um juiz. Controlo o riso novamente. O homem da lei veio com seu paletó azul-petróleo, sua gravata curta vermelha e, quando se levanta, seu cinto se abre, provocando desconforto geral.
O homem, lá atrás do bolo, agora elogia seus “parceiros” aniversariantes do mês. Todos são, claro, muito importantes para ele, afinal é por causa deles que o presidente está em posição tão privilegiada atrás do bolo.

(Agora sinto o cheiro de saltenha. A gordinha, sentada ao meu lado, adorou saber que não gosto muito do quitute, afinal sobra mais para ela).

O “grande-intelectual-presidente” agora vai encerrar o seu discurso, breve, já que não é tão bom com as palavras como o grego lá do início. Resolve cantar os “parabéns” para os aniversariantes, mas antes precisa nomear seu extremo conhecimento pela música, diapasões e partituras. Dá o tom exato e todos o acompanham no “Parabéns a você”.
As pessoas sorriem e olham para o bolo, felizes pela aproximação da hora de cortá-lo. Mas antes, nova pausa. Todos os outros grandes intelectuais querem dizer algo, inclusive o juiz-cinto-frouxo.

Eis que são interrompidos os memoráveis discursos. Vinícius de Moraes perde a batalha para o quibe e para a empada de falso camarão. Alguém olhou para a gordinha e pediu para ela se servir. Respiro e solto uma gargalhada. O homem sai de trás do bolo.

Um Comentário para “ O quibe e o presidente ”

  1. ginners@hostelries.forecasting” rel=”nofollow”>.…

    tnx for info….

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