Neguinho do Samba-Reggae

Paloma Ayres e Rebeca Caldas

Foto: Paloma Ayres

Do som nas bacias à música do mundo. A trajetória de um mestre da percussão.

Circulando pelas ruas estreitas do Pelô, onde é impossível não ouvir o menor dos acordes dos tambores do ritmo que tem como pai o nosso perfilado, a equipe de reportagem procurava a Sede do Bloco Didá, fundado por Neguinho do Samba em 1993. As escadas de azulejos nos levaram ao segundo andar do casarão, onde ele nos aguardava. Com seu jeito calmo e simples, Neguinho nos recebeu como se já nos conhecesse, porém, deu-nos a recomendação de que não poderia demorar, pois tinha outros compromissos, aliás, como já é rotina desse que é um dos mestres da percussão na Bahia.

 “Eu só acredito na música e no mundo se você pensar no outro”

“Eu só acredito na música e no mundo se você pensar no outro”

O apelido? Tem a ver com o ritmo que aprendeu a tocar ainda na infância. “Comecei a fazer som na bacia de roupa da minha mãe”, a lavadeira Nilza Souza, ajudando nos afazeres dela. Com medo de apanhar da mãe, já que ela sempre tinha que repor sua ferramenta de trabalho, já avariada, o pequeno percussionista chamou um marceneiro que conhecia para colocar uma placa de madeira na bacia. No entanto, como a madeira é um material duro, ele precisou providenciar outro instrumento para exercitar suas habilidades musicais.

Nascido em 1954, na região do Dique do Tororó, Neguinho do Samba é terceiro da fila de 14 irmãos. Já mostrando intimidade com a música, montou um grupo de percussão com meninos que tinham entre 11 e 12 anos, do bairro onde morava, tocando em tambores feitos a partir de latas de leite e sacolas de supermercado. Aos 13 anos, começou a tocar em blocos de carnaval, como Coruja, Internacionais e blocos de percussão como Filhos da Liberdade, Ritmistas do Samba.

Quando se trata de citar cantores que considera como ídolos, Neguinho ressalta que não basta apresentarem talento musical. Aqueles em que se espelhou utilizaram o sucesso e a representatividade para transformar de alguma forma o contexto social em que viviam. São eles: Luis Gonzaga que, segundo o artista, cantava em troca de comida para doar à população de sua comunidade e Carlinhos Brown, reconhecido também pelo trabalho social que desenvolve.

Neguinho parece ter um grande encantamento pelo universo feminino, já que é pai de cinco filhas e apenas dois filhos, frutos de uniões com seis companheiras. Em 1974, as mulheres começaram a fazer parte de sua vida profissional, pois ajudou a fundar o Ilê Ayê, onde começou a fazer os instrumentos para o bloco com a ajuda do pai, o ferreiro Jacinto Souza, e por lá ficou oito anos. O artista destaca a importância do bloco para a afirmação da identidade negra, sobretudo delas. Segundo ele, a idéia de criação do Ilê surgiu depois que duas mulheres, Neusa e Marinalva foram barradas num baile de carnaval da Associação Atlética da Bahia porque eram negras.

Em 1982, ingressou no Olodum, onde permaneceu por 16 anos incentivando o desenvolvimento cultural e educacional dos seus alunos. “Nesses blocos, tive a oportunidade de educar, através da música, meninos em vulnerabilidade social e que hoje já são pais de família e tocam com vários artistas ou no exterior com seus próprios grupos”, conta. Foi no Olodum que Neguinho do Samba teve a oportunidade de tocar com artistas de renome, como Wayne Short, Michael Jackson e Paul Simon, cantor que se tornou um grande amigo e teve grande importância na sua trajetória como músico e agente social.

A partir da experiência que teve com os blocos, Neguinho não se deu conta de que aos poucos estava criando uma musicalidade nova, reconhecida pelo cantor Paul Simon que, quando ouviu o som dos tambores dos meninos do Olodum, declarou: “Estive com Bob Marley e falei a ele que a música dele era a música do mundo. Agora eu digo a você que a sua música é a do mundo. Você poderia se juntar ao Bob Marley (à música) e dizer que essa música é samba-reggae”. Neguinho salienta que se trata de um estilo musical que nasce com engajamento social: “Para fazer samba-reggae tem que tratar seu pai, sua mãe, seu irmão, sua mãe bem, senão não faz”.

Em uma temporada nos Estados Unidos, Neguinho do Samba deu aulas de percussão a americanos, mas algo lhe deixou intrigado: não havia mulheres entre seus alunos. Quando perguntou onde estavam elas, responderam que “mulher é fraca”. “Mas como é que é fraca uma mulher que pare e sustenta um homem de 2 metros de altura? Eu fiz uns repiques pequenos para vender às mulheres e crianças”. Mais tarde, Paul Simon prometeu dar-lhe um carro importado, mas Neguinho recusou e pediu em troca dois casarões localizados no Pelourinho. Ele queria construir um quartel general para as mulheres, hoje a sede do Bloco Didá, formado por mulheres que apresentam péssimas condições financeiras, vítimas de violência domésticas, sem acesso à educação, entre outros problemas. A proposta do bloco é dar suporte para que elas exercitem a arte, a cultura e a cidadania.

Mesmo com a representatividade que exerce no universo musical baiano e na comunidade negra, Neguinho do Samba prefere se reservar. “Eu não sou nada, eu aprendo mais com as pessoas do que ensino”. Seu modo simples de se comportar se reflete no modo como vê a vida e o papel da música para a transformação social. “Eu só acredito na música e no mundo se você pensar no outro”. Sobre a desigualdade social e a luta do povo negro, ressalta: “É uma luta com o povo unido, o povo negro só não, todo o povo, o branco, o alemão. O importante é que sejam seres humanos, que estejam respirando, têm que estar juntos em qualquer luta”.

Que ele criou um ritmo e vive de música, já se sabe. Mas o que toca no seu player? “Eu escuto João Gilberto, Caetano, Djavan, Paula Lima, eu só gosto de ouvir o que tem letra, que tem assunto. Se não tiver assunto, eu não escuto. Garota de Ipanema foi feita há vários anos e parece que foi feita hoje. Tem músicas que são fabricadas aqui que são músicas pra três meses, eu não escuto”. Nem só de Samba (-Reggae) vive Neguinho, cujo estilo discreto e pouco midiático de ser, contrastando com a ilusão no mundo artístico, reflete um fomentador de reflexões sobre a realidade do povo negro e a vida de um modo geral, que ecoam tanto quanto o rufar dos tambores nas ladeiras do Pelô.

Um Comentário para “ Neguinho do Samba-Reggae ”

  1. gumming@rural.lengthening” rel=”nofollow”>.…

    ñïàñèáî çà èíôó!…

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