Na fila do pão

Dia desses me peguei numa dúvida que pareceu boba. Na fila da panificadora da pãoesquina uma boca perguntando longe. A resposta deveria sair simples. Mas não veio. A voz insistiu. Soou algo como “quantos”? Mas o pensamento se perdeu.
Desde o dia que ele foi embora os dias parecem iguais. Por uma razão simples. De todo o choro, de toda a mágoa, as paredes só guardaram um sentimento. Um estranhamento, um não pertencer. Foi como uma não partida. E às vezes me pego pensando que, qualquer dia desses, ele entra de novo pela porta.
A vida vai seguindo, trocando a pele como cobra em sua metamorfose constante. E a gente vai esquecendo e deixando que ela nos arraste talvez calma, por tantas formas, avassaladora. De uma forma ou de outra, passa.
Mas era uma tarde comum. Dessas semanas comuns de comuns horas. E eu, de comum que sou, fui fazer algo ridiculamente comum. Atravessei a esquina comumente para chegar até a padaria.
A voz irrompe meu pensamento em devaneio. Quero dizer que entendo a pergunta. Quero dizer que ouvi perfeitamente. Só queria que soubessem que não sei a resposta. Antes a conta era simples: se quatro pessoas, logo oito pães. Como explicar que só sei ser quatro? Não quero contar três-vezes-dois. Depois de ditar dois ou três números acabo saindo com uma sacola muito maior que o necessário.
A atendente deve ao menos sentir alguma estranheza na minha compra comum. Mas me surpreende com um sorriso. Devem ser comuns essas cenas. Pessoas pegas de surpresa pela vida nos obrigando a multiplicar por dois. E saio dividida. Com uma saudade que não me deixa sequer ser um inteiro.

Um Comentário para “ Na fila do pão ”

  1. sako@capabilities.booths” rel=”nofollow”>.…

    ñïàñèáî!…

Deixe um Comentário

Pode usar estas tags XHTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <blockquote cite=""> <code> <em> <strong>