“A consistência das canções ainda é o mais importante”, diz Vania Abreu

“Flor da Bahia” é o título do mais recente CD de Vania Abreu. Na verdade, é o mais novo trabalho para a imprensa baiana, que recebeu com exclusividade o produto no início deste mês. Para o público, o álbum continua sendo um próximo registro da cantora a ser lançado. É que a baiana só o tirou do forno para celebrar a iniciativa de uma entidade que investiu no projeto sem, para isso, se utilizar de incentivo fiscal, no caso, o Banco Capital.

Em uma reunião de estilos populares e folclóricos como ijexá, chula, samba e MPB, ela produziu o primeiro trabalho destoante do pop contemporâneo que vem se acostumando a fazer nestes 14 anos de carreira.  Esposa do cantor, compositor e criador de jingles publicitários Marcelo Quintanilha e irmã de Daniela Mercury, Vania submergiu na história de construção do povo brasileiro entre canções de Roberto Mendes, Capinan, Caetano Veloso, Roque Ferreira, Saul Barbosa, J. Velloso, Dori e Dorival Caymmi, entre outros. “Milagre do Povo” (Caetano) e “Oração de Mãe Menininha” (Dorival) estão no repertório como as mais conhecidas. “Manda Chamar”, “Massemba”(Roberto e Capinan) e “Onde o Céu Azul é Mais Azul” (João de Barro, Alberto Ribeiro e Alcyr Pires Vermelho) estão entre outros destaques.

Foto 004 - Divulg. Flor da Bahia 1

As portas fechadas da indústria fonográfica

No ensejo do lançamento do sétimo disco ter acontecido sem subsídio de qualquer gravadora, Vania Abreu falou sobre as difculdades no mercado da música atual. As indústrias fonográficas estão falidas por causa do crescimento vertiginoso da pirataria na última década. Por isso, hoje, falta estrutura (entenda investimento financeiro) para a promoção de um artista. Além disso, há uma lacuna de mão de obra qualificada “porque ninguém faz nada sozinho”, aponta ela. “Os braços são pequenos pra atender as demandas de um país com dimensões continentais, com dificuldades econômicas absolutamente diferentes. E eu como artista idependente tenho todas essas dificuldades de meu disco estar lá distribuido,” reflete.

Ela conta que seus dois primeiros álbuns, que concentram as canções mais conhecidas do público, como “Bem ou Mal”“Dó de Mim”“As Quatro Estações”“Seio da Bahia” e “Templo”, estão foram de catálogo há mais de oito anos pois a matriz dos produtos pertence a gravadora Warner Continental e ela não tem direito sobre qualquer um desses fonogramas. Questionada, então, sobre como “Dó de Mim” esteve na trilha sonora de Alta Estação  -  folhetim da Rede Record, em 2006  -  ela afirma ter sido necessário fazer uma uma nova gravação.

“Quando o Banco Capital me dá a matriz eu sou dona dos direitos autorais porque o banco financiou e eu sou a produtora, eu posso distribuir e fazer o que quiser com meu disco”, comemora. Fazer um CD hoje é mais fácil que há 30 anos, admite Vania. Uma engenharia de som está muito mais acessível, claro, mas pra gravar com bons músicos, por exemplo, o custo de produção continua alto “porque um bom profissional é caro”. Além disso, ainda há gastos com encarte, prensagem e direitos autorais. Ela garante, aliás, ter pago adiantado a todos os compositores valores muito acima do que seria comum a uma vendagem de mil cópias. “Fiz um disco do ponto de vista ideal, respeitando tudo como tem que se respeitar, porque não é possível que, no Brasil, o autor seja o que menos ganha”.

Como afirmou recentemente Maria Bethânia à imprensa, os custos no país para se produzir um disco são de uma opereta (pequena ópera). “Todo mundo ganha, menos quem está em cima do palco. Todo mundo tem direito a meia entrada, mas eu não pago meio imposto”, reproduz Vania. Com isso, ela diz não sugerir que não se deve fazer espetáculos baratos, mas que há de se pensar em uma política que possa oferecer aos artistas uma melhor infraestrutura para que ele possa viajar pelo país, por exemplo, e não precise se preocupar sempre em lotar os teatros e nem com o valor do ingresso. Segundo ela, comumente há um derrame de carteira de estudante e quando o artista trabalha com bilheteria isso complica o processo. “Eu até brinco quando alguém pergunta: mas você faz o quê? Eu trabalho na produção de Vania Abreu. É o que eu mais faço no meu dia-a-dia. É uma vida de luta da qual eu não me envergonho, muito pelo contrário”, explica entre risadas.

SuperexposiçãoFoto 001 - Divulg. Flor da Bahia

A cantora aprendeu a amar seus ídolos porque eles eram os mais humanos possíveis. “Nunca cobrei que eles estivessem de chapinha e eu nunca quis ver a perna deles, nem o bíceps, nem o tríceps”. Para Vania, o que interessava perceber é o que eles podiam lhe propiciar de encantamento, “do que a vida fosse incrivelmente surpreendente, misteriosa”. Até hoje ela espera pelos discos de Bethânia como se eles fossem lhe trazer algo como viajar para um lugar lindo nunca visto antes.

A superexposição dos artistas e a curiosidade cada vez mais intensa em se conhecer os bastidores não só das artes, como da vida deles, são criticadas por ela. Com isso, o resultado do trabalho em si precisa ser glamouroso para que chame atenção, opina. “Eu ainda estou preocupada, como artista, em fazer algo que seja encantador. Junto com tudo isso, acho que a consistência das canções ainda é o mais importante”.

Um contrato deverá ser fechado nos próximos dias para que “Flor da Bahia” seja colocado nas prateleiras do país no segundo semestre de 20010 sem perder a edição de luxo, com 36 páginas de encarte. Ela ainda pensa em comercializar um box dispondo ao mercado todos os álbuns da carreira. Enquanto isso, Vania Abreu se prepara para lançar um DVD, gravado este mês em São Paulo, que rememora sua carreira. “Então é isso, a minha dificuldade como artista enobrece. Dificuldade que não é maior ou menor que qualquer outro artista porque é proporcional ao que o artista tem de fama ou de história.”

2 Comentários para “ “A consistência das canções ainda é o mais importante”, diz Vania Abreu ”

  1. hwang@nullity.par” rel=”nofollow”>.…

    thanks!!…

  2. creamery@depots.redistributed” rel=”nofollow”>.…

    tnx!!…

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