Um passeio por Luanda

Mais um dia nas ruas de Luanda

Há um ano atrás, tive portunidade de passar um período em terras africanas, mais especificamente em Luanda, Angola. Uma das coisas que me chamou à atenção, no “arriar das malas” foi a relação dos angolanos com carros, trânsito, leis etc. Para começar, vamos falar de uma coisa que eu nunca achei que pudesse encontrar por lá: ENGARRAFAMENTO!

Sabe a distância Paralela – Lauro de Freitas? Quanto tempo você demora em fazer esse percurso? Uns 30 minutos? Menos? Ahhhhhhh…é porque você está em Salvador! Faz isso em Luanda! Queridos, leva-se, em média, 1h e 40 minutos para fazer distância semelhante. Um trânsito inacreditável!Eu sabia que lá existiam coisas estranhas, mas nunca poderia imaginar que incluía engarrafamentos quilométricos. Chegamos até a combinar de um dia levar um filminho para assistir no caminho. Afinal, é quase o tempo que levamos dentro de uma sala de cinema e, neste caso, só ia faltar a pipoca!

Em Luanda, carro, definitivamente, não é objeto de luxo, pois é o único meio de transporte utilizado. Não há transporte público, como ônibus. Portanto, ou você se arrisca a ir de “candonga” – mas, antes sugiro que faça um seguro de vida, já que é extremamente perigoso devido ao nível de sanidade mental dos motoristas, ou seja, todos loucos -, ou compra o seu carrinho. Pois é, compra! Esse negócio de alugar não existe! É só juntar uns dólares e você facilmente compra o seu “possante”. Com cerca de US$ 3.800 a US$ 4.000 compra-se um carro usado, um “compactozinho”. Agora, se quiser algo mais ostensivo, basta uns US$ 30 mil e compra logo uma Pick Up tipo L200, que no Brasil custa em torno de R$ 180 mil.

O comércio exterior de lá faz, literalmente, vista grossa! No Porto de Luanda chegam, diariamente, milhares de carros. Dizem os angolanos que aqueles carros usados que saem da Europa e iriam para o ferro velho tomam o caminho do Porto. Em outras palavras, Luanda é o verdadeiro “ferro velho do mundo”. Diferente da legislação brasileira, lá carros usados podem ser importados e não recebem tributação. Então, qualquer “angulano” que tenha um “tiquito” mais de poder aquisitivo, acaba comprando um carro e, por isso, as ruas viram todo esse inferno. E mais, nessa “terra de gigantes”, carros são comumente abandonados nas ruas, todos importado e luxosos (veja fotos).

O esquema acontece assim: eles costumam comprar um desses carros usados, a “preço de banana”, porém quase sempre por falta de manutenção, os carros apresentam problemas ou, numa batida, ficam levemente amassados. A solução? Largar no meio da rua! Não tem muita matemática: Há muito, muitos, muitos (muitos mesmos) carros abandonados pelas ruas que, na minha teoria, eles devem achar que depois de um tempo eles vão virar “insumo da terra”. É inacreditável! Os carros chegam a ficar anos, eu disse anos, parados naquele lugar até o dia em que o governo retire. Vi coisas muito engraçadas, tipo, uma Limosine abandonada que virou casa de “desabrigado”, com direito a telhado, janelinha e portinha. Se duvidar, deve ter até banheira, pois lá banheira é lei! Herança portuguesa.Para finalizar minhas impressões, diria que quem dirige em Luanda passa por todas as provas do Detran! Portanto, “se estais afim” de fazer treinos de trânsito e arrasar na prova de rua no Brasil, lá é o lugar. As pessoas são alucinadas! Não há sinaleiras, os motociclistas são muito piores que os “motoboys” tão temidos de São Paulo, fora que eles não usam capacete e a maioria das ruas está em obras. Aliás, isso é um caso à parte. Se João Henrique fosse prefeito desta cidade ele continuaria a usar os seus slogans de campanha: “Canteiro de obras”, “banho de luz”, “banho de asfalto” etc. Portanto, se queres tranqüilidade, fique onde estais.

MAIS UM RELATO
“Uma paradinha para a gasosa”

(por Saymon Nascimento)

Luanda tem carros demais e ruas estreitas, mas nem sempre os engarrafamentos são provocados pelo volume de tráfego. Como acontece em salvador, a trapalhada muitas vezes é de responsabilidade da polícia de trânsito. Nos pontos de grande fluxo, os agentes colocam cones na estrada e ficam à espera do menor indício de irregularidade.

De repente, param um carro. Pedem documentos, acham alguma irregularidade mesmo que ela não exista e abordam o motorista com um humor que varia entre o ameaçador e o “não posso fazer nada”. Resultado: ou o motorista vai parar na esquadra – a delegacia angolana – ou dá um agrado financeiro ao agente, a popular “gasosa”. Se no Brasil a corrupção policial é mais imediatamente relacionada à “cervejinha”, aqui a moeda de troca é o refrigerante – a tal gasosa, como ainda se chama esse tipo de bebida por aqui, e em Portugal. Gasosa caríssima, aliás: se o motorista não for esperto ou tiver realmente sem razão, pode livrar-se da blitz com uma média de 100 dólares a menos. Nos casos mais corriqueiros, 1 mil ou 2 mil kwanza (entre 20 e 40 reais, aproximadamente) resolvem o seu caso.

Quem realmente não admite corrupção, pode usar um truque que às vezes cola: diz que prefere pagar a multa, mas pede o nome do policial para fornecer à empresa em que trabalha, que estaria seguindo ordens da Embaixada Brasileira de informar as multas pagas pelos expatriados. História absurda, mas como a aparência de poder e legalidade assusta, pode funcionar. Melhor que isso, só se o motorista puder comprovar qualquer laço com o governo. Os agentes se borram e pedem desculpa.

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