Mobilização de apoiadores deve ser principal uso eleitoral da internet, aponta pesquisador

Camilo Aggio, pesquisador de campanhas online

Camilo Aggio, pesquisador de campanhas online

Com a nova legislação para o uso da internet em campanhas eleitorais, pré-candidatos e seus partidos começam a traçar estratégias para as eleições do ano que vem. Em grande parte, a expectativa é motivada pelo exemplo de sucesso da campanha que elegeu o atual presidente americano Barack Obama. Mas quais as ferramentas e estratégias são mais adequadas para a cultura política brasileira? Qual a influência que a internet terá no resultado da próxima eleição brasileira? Na tentativa de encontrar respostas para estas e outras perguntas entrevistamos o pesquisador de campanhas online Camilo Aggio, mestrando em Comunicação e Cultura Contemporâneas pela Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia (Facom-UFBA).

Lupa Digital: Qual sua avaliação da forma final da lei sancionada pelo presidente Luis Inácio Lula da Silva sobre campanhas eleitorais na internet?

Camilo Aggio: Um grande avanço. Nos pleitos anteriores, os partidos e candidatos ficavam restritos à utilização dos web sites, privados da utilização de ferramentas importantes como redes sociais e compartilhadores de conteúdo. Não que os web sites já não contribuíssem para um tratamento diferenciado ou modo particular de fazer campanha, como a possibilidade de uma exposição mais substancial das questões de políticas públicas atrelados às plataformas e projetos de campanha. No entanto, com a nova legislação sobre o uso da internet, os candidatos podem ter uma aproximação mais efetiva com eleitores em potencial nas redes sociais, engajar e mobilizar esses cidadãos e circular suas mensagens de uma forma menos custosa e em formatos variados, como o audiovisual através do YouTube. Campanhas mais modestas financeiramente poderão fazer um trabalho muito sofisticado se souberem utilizar bem os potenciais oferecidos por essas ferramentas.

LD: Na sua opinião, como será utilizada a internet e qual será a influência nas eleições de 2010?

CA: Tenho certeza que todas as candidaturas utilizarão o maior número de ferramentas quanto possível, principalmente as redes sociais como Facebook e Orkut. O atual estágio das campanhas, que se desmembra, a partir dos web sites, em várias frentes de ação, indicam uma ênfase no poder de mobilização e engajamento dos eleitores. Isso, trocando em miúdos, significa utilizar recursos e ferramentas que permitam, primeiro, uma aproximação com o cidadãos que se reúnem em redes sociais, posteriormente criando a possibilidade de que esses sujeitos desenvolvam ações em prol da campanha circunscritas à web, de fato, ou que utilizem alguns espaços e ferramentas para, a partir da web, organizar ações presenciais tradicionais. As campanhas online inauguraram, principalmente com a campanha de Barack Obama, a posssibilidade dos sujeitos se mobilizarem digitalmente, em ações dentro da internet, como contribuir para a disseminação viral de mensagens de campanha, ou mesmo distribuir conteúdos produzidos pelos próprios cidadãos.

LD: No mês passado, membros do Partido dos Trabalhadores reuniram-se com Ben Self, o marqueteiro responsável pela campanha online que elegeu o atual presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, para trocar experiências sobre campanhas políticas online. Qual a contribuição que a experiência da campanha de Obama poderia trazer para uma campanha petista?

CA: Como adiantei na questão anterior, a contribuição está no know-how da utilização de redes sociais e compartilhadores de conteúdo tendo em vista a mobilização de eleitores através da web. O próprio Ben Self, em entrevista para um veículo nacional, ressaltou a importância da internet em mobilizar e agregar apoiadores e, a partir daí, ampliar o alcance das mensagens políticas de campanha e ações de mobilização. Embora proporcionalmente o Brasil ainda tenha muito o que evoluir em termos de acesso de cidadãos à web, temos um número absoluto considerável e que podem servir de unidades de ação de campanhas que podem fazer a diferença.

LD: Por outro lado, José Serra, apontado como o principal adversário de uma candidatura petista, é o político brasileiro que tem o maior número de seguidores no Twitter e que tem usado a ferramenta de modo sistemático para falar de suas atividades cotidianas como governador de São Paulo e sobre sua vida particular. Nasce aí uma estratégia de aproximação com os eleitores?

CA: Sim, sem dúvida. O Twitter permite a publicação de pequenas informações ou índices se o texto estiver relacionado com hiperlinks. Dessa maneira, além da aproximação com o eleitor, esse se beneficia pelas atualizações das informações, o acesso a outros documentos e conteúdos oferecidos pelo candidato e, o mais interessante, possibilita que esses seguidores incluam em seus twitters as informações que acharem interessante, ou mesmo que produzam informações críticas, complementares ou suplementares e as ofereça aos seus seguidores no microblog. A informação no Twitter tem um potencial enorme de se multiplicar, de atingir uma escala viral na rede.

LD: Especificamente na Bahia, quais são as expectativas de usos das ferramentas da internet nas eleições do próximo ano?

CA: Sempre há uma assimetria nos esforços de campanha de acordo com o cargo concorrido. Não apenas por questões financeiras, mas também pela extensão do eleitorado. Logicamente que para as eleições majoritárias o esforço em contatar eleitores será maior, uma vez que um número maior de cidadãos participam e podem fazer a diferença no andamento de uma campanha. No entanto, ainda creio numa padronização das campanhas online no que tange à utilização das ferramentas e recursos já citados aqui, que compõe aquilo que se denomina a web semântica, enfatizando os esforços de engajamento e mobilização, além da disseminação de conteúdos diversificados. É salutar lembrar do poder que a internet tem de proporcionar estratégias potentes para campanhas menores que, inclusive, desfrutam de um espaço irrisório no horário de propaganda eleitoral gratuita em rádio e TV. Essas campanhas podem explorar com muito mais cuidado e extensão suas questões e propostas, além de se aproximar do eleitores. É a possibilidade de construir maior paridade de disputa, pelo menos dentro da internet que, não esqueçamos, não para de crescer.

LD: As experiências de uso da internet em outros países apontam para algum “modo de fazer”? Há alguma receita que possa orientar os candidatos baianos a traçar estratégias para a campanha na internet?

CA: Receita propriamente dito, não. Mas há um conjunto de princípios e valores que devem ser considerados para uma utilização diferencial e potencialmente eficaz na internet. Significa respeitar, tanto quanto possível, um contato direto com os eleitores, os trazendo para as campanhas não apenas inserindo-os em atividades e ações, mas dialogando, incorporando sugestões e críticas e construindo um ambiente responsivo tanto quanto possível.  Não obstante, é fundamental lembrar o quanto a produção de conteúdos é fundamental, ou seja, a informação política. Se há a possibilidade de produzir, armazenar e disseminar informações em formatos audiovisuais, a custo baixíssimo, como através do YouTube, os candidatos devem aprender a fazer esses produtos, a explorar o espaço e tempo que não tem na televisão e rádio e que traga à sociedade civil temas e questões salutares para o debate público.

3 Comentários para “ Mobilização de apoiadores deve ser principal uso eleitoral da internet, aponta pesquisador ”

  1. [...] forma menos custosa e em formatos variados, como o audiovisual através do YouTube”, afirma em entrevista à Lupa Digital. Aggio explica que campanhas mais modestas e com pouco tempo de rádio e TV poderão expor melhor [...]

  2. [...] Veja também: Mobilização de apoiadores deve ser principal uso eleitoral da internet, aponta pesqu… [...]

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