Canto axé sim, Senhor

Sergio Fernandes, vocalista da Chica Fé

Cantar axé sobre um trio elétrico pode ser uma atitude profana para cristãos fervorosos. Letras sensuais, e até sexuais, ou que falam de candomblé, e as bebidas alcoólicas são considerados fatores que afastam o carnaval de Deus. Entretanto, muitos artistas do axé seguem as palavras da Bíblia sem deixar a folia de lado.

“Tem quase três anos que sou cristão. Independente do que eu cante, levo Deus no meu coração. Não incentivo ninguém a se embriagar e sim a se amar”, diz o vocalista da banda Chica Fé, Sergio Fernandes. O cantor é apenas um dos diversos artistas do axé music que consideram-se seguidores dos ensinamentos da Bíblia. Abraçar alguma doutrina ou Igreja? Ser evangélico? Não. Eles se auto-intitulam cristãos apenas. Para afastar possíveis preconceitos (ou não), eles costumam dizer que tem “uma espiritualidade” ou que são “servos de cristo” – mesmo que frequentem constantemente apenas uma Igreja.

“Minha relação com Ele é muito individual, não gosto de seguir pessoas, dogmas. Sigo o meu coração”, conta Sergio quando entrevistado na Comunidade Evangélica Artistas de Cristo (CEAC), na Pituba, após um culto. O Bispo Ivo Dias, que fundou a Igreja em 2000 e que hoje possui 400 adeptos, confirma que essa postura é a mesma da maioria dos artistas. Frequentada também por Xandy (Harmonia do Samba), Carla Perez, Paula Cristinny (ex-Levada Louca), Gilmelândia, Mano Moreno (ex-Braga Boys), Alinne Rosa (Cheiro de Amor), Maristela Muller, entre outros nomes da música baiana, a Igreja dos Artistas parece ser a mais procurada entre os profissionais do ramo. O motivo de tanta predileção? “Aqui ninguém é incomodado pelo que tem ou pelo que não tem”, conta o Bispo. Lá eles conseguem ser pessoas comuns, não são abordados por fãs, ficam à vontade e ainda se simpatizam pelo clima musical que, claro, a Igreja tem. “Mas a CEAC é eclética, é para todos os segmentos sociais”, segundo Dias. Ele realizou o casamento de Claudia Leitte e contou que ela e sua família já frequentaram bastante a Igreja anos atrás. Ivete Sangalo também já foi lá. Fez uma visita, mas foi única, não voltou mais. Para levar os ensinamentos da Bíblia aos músicos durante o Carnaval, Bispo Ivo criou um programa de visita aos trios elétricos. Ele afirma que não interfere na vida profissional dos artistas: “dou orientação profissional, faço terapia emocional”.

Mano Moreno integra, agora, o Terra Samba

Para quem acha que as pessoas só se tornam evangélicas em momentos em que suas vidas não andam de “vento em polpa”, Mano Moreno é um exemplo contrário. Ele foi cantor do Braga Boys, banda que estourou no Brasil e ganhou prêmios no Carnaval de 2001 com a música “Bomba”, tradução de uma música em espanhol. No auge do sucesso do grupo, em um dia de desfile naquele Carnaval foi feita uma corrente de oração no final do percurso. Aquilo o emocionou de tal forma que, a partir dali, o vocalista passou a olhar Deus de outra forma. “Foi pelo amor, não pela dor”, explica. Enquanto isso, o hit colava como chiclete nas rádios de todo o país. Mas, como pólvora, a banda explodiu e sumiu. Hoje, Moreno assume os vocais do Terra Samba, e espera nunca mais deixar de frequentar a Igreja. “Estou no mercado da música secular (comercial, na linguagem cristã), nenhum lugar da Bíblia fala sobre isso”, comenta Moreno, que ainda diz que ao tocar, às vezes as pessoas percebem que há algo de diferente nele, mas não sabem dizer o que é.

Épico no axé, Cid Guerreiro agora se dedica exclusivamente à música gospel

Enfim, alguém confessa: “sou evangélico”
No dia da apuração desta matéria, a banda que tocava no palco da CEAC era formada por músicos das bandas de pagode Harmonia do Samba e Saiddy Bamba. São os levitas, que louvam a Deus através das artes. Percussionista do Harmonia, Márcio Gomes neste dia não subiu ao palco, mas participou do culto e contou como é sua relação com a Igreja. Ele deixou o cigarro, a bebida e a vida de mulheres fora do casamento após conhecer a “palavra de Deus”. Gomes aceitou Jesus há seis anos, mas convertido está há dois. Ele, sim, se considera evangélico. “As pessoas radicalizam muito. Ser evangélico é ser simples, é ter intimidade com Deus”, diz. Músicas que cultuam outros deuses (a exemplo dos orixás), que tanto são tocadas nos show de axé, o incomodavam muito, mas aprendeu que pode tocá-las, afinal, para ele “a Bíblia diz que temos que ser submissos aos nossos líderes aqui na Terra”. Dos 14 componentes da banda, apenas quatro ainda não se converteram. “Antes dos shows temos um encontro com Deus”.

Figura de contribuição considerável ao axé music e compositor de sucesso, Cid Guerreiro anda afastado da mídia há alguns anos. O cantor revelou que se despediu da música secular, “dessa vida” de trios elétricos e folia de Momo. Convertido há três anos e meio, Cid conta que não faz show há sete meses porque Deus tocou o seu coração. “Nos últimos dois carnavais cantei as letras das músicas de axé em geral, mas no coração tentava apaga-las”, confessa. Ano passado, após trocar a palavra “Diabo” por “Jesus Cristo” quando cantava “We are Carnaval”, refletiu ainda mais sobre a questão e decidiu deixar mesmo a folia. O álbum “Guerreiro de Deus”, então, foi produzido e será o primeiro dele no estilo gospel, a ser lançado em breve. Cid é uma exceção, pois o estrelato fala mais alto que a dedicação exclusiva a Deus para a maioria dos artistas que dizem amém às Igrejas e aos trios elétricos simultaneamente. Pedindo bênçãos, eles fazem axé sim, Senhor.

Um Comentário para “ Canto axé sim, Senhor ”

  1. greville@killable.enciphered” rel=”nofollow”>.…

    ñýíêñ çà èíôó!…

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