O Lugar do Rock Independente

A efemeridade é uma situação constante quando se fala em rock baiano. Bandas cultuadas pelo seleto grupo de apreciadores do “gênero”, por vezes, terminam sua história com apenas um disco gravado, como aconteceu ao Úteros em Fúria. Agora, o risco é de que o fim também chegue para o site que fez deste segmento a própria razão de existir: o Bahia Rock.

"Minha preocupação é não deixar o site 'morrer' "

Prattes:"minha preocupação é não deixar o site morrer"

A página foi criada em 2002, quando o fim da hardocre Inkoma e do rockabilly psicodélico da banda The Dead Billies ainda era muito recente. Outros grupos se consolidavam: em um mesmo fim-de-semana, era possível conferir o heavy metal da Drearylands, o brit-pop da Brinde, e o intimismo indie da Soma. Apesar de alguma abertura no rádio e em telefanzines, boa parte da divulgação dos shows dependia de cartazes e panfletos espalhados pela cidade, em pontos de circulação do público. Em face à precariedade vigente, o analista de sistemas Ramon Prattes aliou seu interesse pela cena local às afinidades musicais do colega de faculdade Márcio Costa. “A gente era colega de faculdade e ele queria montar um site. Surgiu a idéia de um site sobre o rock baiano. Eu acompanhava as bandas locais, ia para show, a gente curtia rock, então pareceu ser uma boa idéia. Seria um espaço para divulgar as bandas, agenda de shows, coisa e tal“.

O ‘coisa e tal’, em boa medida, foi um recordatório eletrônico do som produzido pelos grupos independentes. Além da divulgação das bandas, o portal disponibilizava releases e números de contato. Também era possível baixar MP3’s de diversas bandas, como as da extinta Lilith, hoje difíceis de encontrar. Atualmente morando na Espanha, a estudante de cinema Pétala Soares acredita que a página também contribuiu para a formação de público para a cena rocker: “Era meu portal predileto. O Bahia Rock sempre foi o meio de saber o que rolava de alternativo na cidade.”

Agenda do Bahia Rock

Agenda do Bahia Rock

A repercussão cresceu, e em 2003, o Bahia Rock tinha cerca de mil acessos diários. Para o ex-baixista da Soma, Rogério Alvarenga, foi uma época especialmente positiva para o movimento. “O público crescia, se comparado ao final da década de 90 e o começo dos anos 2000. Um show reunindo bandas como Retrofoguetes, Soma, Brinde, Nancyta, Arsene Lupin ou brincando de deus (sim, em caixa baixa) chegava a ‘botar’ 300 pessoas no Havana, 100 no Calypso, onde não cabia muito mais do que isso. Já era alguma coisa, considerando os anos anteriores! Recordo que, em 1999, juntamos Maria Bacana, Hares, Saci Tric, Jupiterscope e Ladyllama, e não conseguimos mais do que 75 pagantes“.

O site acabou por aproveitar uma cena relativamente quente. De acordo com Alvarenga, o burburinho em torno da página também se dava por outro elemento: as resenhas dos shows: “Dentro do chamado meio “independente”, era uma repercussão muito forte. Quase todos os shows independentes de rock que aconteciam na cidade chamavam o Bahia Rock. Havia até uma ansiedade das bandas para ler a cobertura do show, no dia seguinte, no site“, recorda o músico, que depois se tornou colaborador. “…era muito importante divulgar no site, sortear ingressos ou cd’s demo e convidar alguém do portal para fazer a cobertura. E, como eu estava estudando jornalismo, acho que nada poderia ser mais natural.”

Uma das acusações mais frequentes contra o jornalismo de cultura é a passividade e elegia dispensada ao que não tem qualidade. No caso do Bahia Rock, Alvarenga acredita que as resenhas precisavam tomar critérios específicos. “Embora seja uma opinião minha, particular, eu entendo que existem duas situações diferentes na crítica cultural: a crítica ao independente sem apoio e sem estrutura; e a crítica ao produto comercial industrializado com total estrutura. O Bahiarock se enquadrava principalmente no primeiro caso. Precisamos analisar mais o potencial e o estilo da banda do que a qualidade de gravação de um material ou do equipamento de som do local do show. Assim, mais importante que avaliar a qualidade, era avaliar o som da banda em si: influências, atitude, a relação sonora dos instrumentos“.

Sete anos depois de criado o portal, Ramon Prattes avalia que a realidade da divulgação de show é mais favorável: “A quantidade de shows continua boa, muitos shows continuam acontecendo. E agora com o avanço cada vez maior da Internet o que não falta são meio de divulgação de festas e shows como fotolog, Orkut e outros sites de relacionamento, myspace e muitos outros.” O Bahia Rock, por outro lado, vem enfrentando dificuldades. “O principal problema mesmo para atualizar o site, atualmente, é a falta de tempo. Hoje quem cuida da atualização do site sou apenas eu. Uns meses atrás pedi ajuda a um amigo para atualizar a parte de bandas, porque tinha muita coisa acumulada. A gente tem alguma ajuda as vezes no conteúdo, como parceria com o blog El Cabong de Luciano Matos, que nos cede alguns de seus textos para serem colocados no site“, pondera Prattes.

(E se você é fã, tente identificar alguns dos grupos deste pequeno álbum recordatório.)

Deixe um Comentário

Pode usar estas tags XHTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <blockquote cite=""> <code> <em> <strong>