UFBA cria primeiro curso de Estudos de Gênero e Diversidades do país

Entre os onze prédios situados na unidade de ensino de São Lázaro – UFBA há uma construção simples, mas de interior decorado caprichosamente, que se destaca pelo toque feminino do lilás. As mesas, os sofás, as portas, as estantes, os murais, o corrimão da escada, tudo é pintado com a cor lilás. Para não deixar dúvidas da presença feminina, os ambientes ainda são decorados com tecido de chita e bonecas de barro que representam diversas etnias. Em tempos de eleições, nos murais há propagandas de mulheres candidatas e, em uma das paredes, um quadro com os dizeres “Ter ou não ter filhos. Uma escolha”. Essas são as instalações do Núcleo de Estudos Interdisciplinares sobre a Mulher (NEIM), responsável por criar um dos novos bacharelados da UFBA, a primeira graduação de Estudos de Gênero e Diversidades do país.

Ângela Maria Freire, vice-diretora do NEIM

Ângela Maria Freire, vice-diretora do NEIM

Segundo a professora Ângela Maria Freire, uma das idealizadoras do projeto que deu origem a nova graduação, o curso surgiu da vontade das integrantes do NEIM de inserir e ampliar o debate sobre gênero dentro da universidade federal. Vice-diretora do núcleo, Ângela Maria Freire reconhece a dificuldade de consolidar o bacharelado no contexto da UFBA devido ao tradicionalismo acadêmico. “Houve uma enorme resistência acadêmica em relação à criação desse curso por estudos de gênero se tratar de uma discussão política. Ainda hoje, alguns estudiosos tentam exibir uma idéia de neutralidade da ciência que não condiz com a realidade”, afirma.

Estrutura

O graduando em Estudos de Gênero e Diversidades se formará em no mínino oito semestres, período no qual estudará temas como feminismo, etnia, raça, classe, gerações, relações de poder e orientação sexual. A grade curricular do curso já está pronta e as aulas serão ministradas pelo turno da noite no NEIM, na Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas (FFCH) e no pavilhão de aulas recém construído em São Lázaro. Também está previsto um concurso público para docentes, que deverão ser contratados pela universidade para o semestre letivo 2009.1. Embora, segundo a professora Ângela Maria, exista verba destinada para esse processo seletivo, já no mês de outubro o edital ainda não foi lançado.

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Instalações do NEIM

Instalações do NEIM

Mercado de Trabalho

Um questionamento que surge com a criação de uma nova graduação é a inserção do profissional no mercado de trabalho. Nesse caso, como o curso é pioneiro no país, a dúvida se acentua. Que mercado vai absorver os concluintes de Estudos de Gênero e Diversidades? Segundo material informativo sobre os novos divulgado pela UFBA, o bacharel poderá atuar em cooperativas, associações, sindicatos e empresas privadas, tanto no planejamento como na execução de atividades, ações, projetos e programas de desenvolvimento regional e políticas públicas em geral que envolvam a abordagem de gênero e diversidades.

A vice-diretora do NEIM lembra também que, apesar da graduação ser nova, o campo de estudos de gênero já está consolidado no país. O núcleo, por exemplo, completa 25 anos de existência, em 2008, atuando na área de pesquisa sobre mulher e feminismo e na prestação de serviços de consultoria e assessoria a programas e organismos públicos e não-governamentais.

Maria Eunice Kalil, integrante do Fórum Comunitário de Combate a Violência e do Instituto Mulheres pela Atenção Integral á Saúde (IMAIS), enxerga novas possibilidades com a criação do curso. “Havendo profissionais com uma formação específica para analisar as questões de gênero e diversidades, cria-se uma perspectiva de ampliação da compreensão da realidade social e possibilita a existência de intervenções mais adequadas nessa realidade”.

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Entraves

Além da necessidade de contratação de novos professores, o curso enfrenta outros dois problemas em sua implantação. Um deles é a demanda, pois obviamente sem alunos não há curso. Assim como em outras novas graduações, a exemplo de Gastronomia e Música Popular, a proposta de criação do curso partiu da solicitação de um núcleo de formação superior da universidade. Sendo assim, não houve estudo de impacto que avaliasse a menor ou maior procura estudantil por determinadas áreas, nem pesquisa de mercado. Segundo Maerbal Marinho, pró-reitor de ensino de graduação, é possível que ocorra um reajuste do número de vagas para o próximo processo seletivo, a depender da procura pelo vestibular de cada curso. No vestibular 2009, são oferecidas 50 vagas para Estudos de Gênero e Diversidades.

Estudantes em uma das salas de aula do NEIM

Estudantes em uma das salas de aula do NEIM

Outro problema que pode inviabilizar a implantação do curso diz respeito à segurança nos campi da universidade. Ângela Maria afirma que essa questão é encarada como prioridade pelas idealizadoras do projeto. Por se tratar de um curso noturno, ela garante que, através de decisão tomada em plenária, as integrantes do NEIM só irão iniciar as aulas caso os requisitos básicos de segurança forem atendidos.

As mediações da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas, em São Lázaro, são tidas como as mais perigosas pela comunidade universitária. O caminho que leva até a faculdade é deserto e sem acesso a transporte público. Não raro alunos são assaltados e recentemente o corpo de uma mulher assassinada foi encontrado dentro da unidade.

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Segundo o responsável pela Coordenação de Segurança dos Campi (Cosec), o coronel de reserva da PM José Soares, as medidas para melhorar a segurança em São Lázaro já estão sendo tomadas através da poda da mata, reforço na iluminação e a implantação de um sistema de vigilância eletrônica com capacidade para 32 câmeras. O coronel Soares não estipulou prazos, mas garantiu que a unidade ainda será totalmente cercada. Quanto ao reforço de seguranças, a coordenação de segurança afirmou que a contratação da nova vigilância está em processo licitatório. A previsão é que, no decorrer dos avanços do REUNI, o efetivo de seguranças aumente de 30 a 40%.

3 Comentários para “ UFBA cria primeiro curso de Estudos de Gênero e Diversidades do país ”

  1. Parabéns às pessoas que, direta ou indiretamente, estão colaborando para a criação do curso. Quero destacar ainda, o papel do NEIM como aglutinador das lutas contra a resistência para a implantação de um curso inovador e necessário como este. Espero que tal iniciativa se amplie nas universidades do Brasil.Marisa de Fátima Lomba de Farias (Profa. da Universidade Federal da Grande Dourados-UFGD)

  2. Adorei saber que já existe um curso sobre gênero e diversidade, espero que isso se espalhe pelo país todo.
    A sociedade precisa saber lidar com o assunto, pois são pessoas que merecem respeito.
    Essa ação ajuda em reduzir o preconceito.
    Parabens

  3. Parabéms,adorei a formação deste curso,estou muito feliz,pois prestarei vestibular no final do ano,pra este curso,pois tem tudo aver comimgo.Peço por gentileza que mim imforme mais.Queria muito fazer serviço social,mais tenho certeza,que este tem mais aver. obrigada.

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